Riscos da energia nuclear permanecem 24 anos depois de Chernobyl

São Paulo - Uma combinação de desrespeito aos regulamentos, falhas no projeto e problemas nas comunicações levou ao mais grave acidente nuclear da história. Nas primeiras horas do dia 26 de abril de 1986, o reator 4 da usina de Chernobyl, na Ucrânia, foi transformado numa imensa panela de pressão que explodiu.

Sua tampa isolante, pesando mil toneladas, foi pelos ares e o núcleo do reator derreteu com os 2 mil graus Celsius, liberando na atmosfera os produtos da fissão radioativa. A nuvem de material potencialmente letal pairou sobre a Europa, países escandinavos e chegou à Escócia e Islândia. Na hora, morreram 31 trabalhadores da usina e bombeiros.

Estima-se que pelo menos 2.500 moradores dos arredores tenham morrido desde 1986 e que há milhões de contaminados naquele país. E não se sabe ao certo quantas ainda morrerão devido a tumores, doenças cardiovasculares, malformações fetais e mutações cromossômicas. Fora as doenças psicológicas, que afetam milhares de vítimas.

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Foram evacuadas da Ucrânia 3,5 milhões de pessoas, mas cerca de 5 milhões ainda vivem em áreas contaminadas. Depois da retirada inicial, centenas voltaram a Chernobyl, na luta para limitar a contaminação nos meses seguintes à explosão. O reator foi selado em um imenso sarcófago de concreto, mas ainda serão necessários muitos anos e investimentos para a descontaminação.

Consultor para a área de energia da Fundação Heinrich Böll, Sergio Dialetachi diz que, ao contrário do que os técnicos e governos sempre disseram, não há usina nuclear que se possa chamar de segura. “O risco é algo inerente à atividade nuclear. Um acidente como o de Chernobyl, diziam eles, só ocorreria a cada 40 mil anos. Mas não levou tudo isso de tempo para acontecer”, lamenta.

Pouco mais de um ano depois da explosão na Ucrânia, o Brasil viveu o pior acidente radiológico da Humanidade: o vazamento de Césio 137, em Goiânia, que matou 60 pessoas. Na ocasião, foram contaminados 6.500 brasileiros que o governo goiano reconhece, mas que mesmo assim lutam até hoje por seus direitos à indenização, aposentadoria e atendimento médico especializado.

“A mesma infraestrutura précária de fiscalização das instalações nucleares persiste até hoje. A Comissão Nacional de Energia Nuclear tem ainda o mesmo número de fiscais para o país inteiro, assim como persiste o descontrole sobre as fontes radiológicas”, diz Dialetachi. “Uma comissão formada na Câmara dos Deputados comprovou que quase metade dessas fontes, algo em torno de 30 mil, está completamente fora do controle do Estado brasileiro. Não se sabe onde estão e em que condições se encontram e, como disse o presidente da associação dos fiscais em radioproteção, em audiência pública em Brasília, estamos no limiar de uma nova tragédia como a de Goiânia.”

A catástrofe radioativa brasileira não se resume ao Césio 137. Ex-trabalhadores sobreviventes da Nuclemon, contaminados, ainda lutam na Justiça por indenização. A mesma empresa é a responsável por dois lixões radioativos irregulares em pleno estado de São Paulo. Um na capital, no bairro de Interlagos, e outro em Botuxim, cidade de Itu, onde o material radioativo era descartado, a céu aberto, sem nenhum isolamento.

A Nuclebrás, à qual estava vinculada a Nuclemon, foi incorporada pelas Indústrias Nucleares Brasileiras (INB), que exploram urânio numa mina em Caetité, na Bahia. Há denúncias de que a mineração contaminou o lençol freático. “Temos ainda uma série de acidentes e incidentes na história das duas usinas de Angra dos Reis”, diz Dialetachi.

O ambientalista ressalta que o país está às vésperas do anúncio de um novo pacote nuclear. Há projetos para a construção de uma central nuclear do Nordeste, de seis a oito novos reatores, a ampliação da fábrica de combustível nuclear de Resende, RJ, o aumento das instalações para enriquecimento de urânio e a expansão da mineração desse combustível nuclear no Ceará e no sul do Pará.

Segundo ele, por trás da indústria nuclear estão poderosos grupos, como as construtoras, prestadoras de serviços e fornecedoras de equipamentos que disputam obras bilionárias. “Para se ter uma ideia, Angra 2 custou cerca de US$ 14 bilhões”, diz. Há ainda os funcionários do setor, sem perspectivas de futuro; militares, que defendem aberta ou veladamente a "necessidade" de o Brasil possuir armas nucleares.

“Usinas nucleares são caras, inseguras, ultrapassadas e sujas, tanto pelo lixo radioativo que produzem e que continua perigosíssimo por centenas de milhares de anos, quanto pelos interesses bélicos que escondem atrás de si”, reforça.

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Foto original: Ben Fairless/Flickr

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Reportagem produzida em 24/04/2006

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